Carta Wajãpi ~

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Conselho das Aldeias Wajãpi Apina

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Open letter of the Wajãpi on the decree extinction of Renca

We Wajãpi live in the state of Amapá, in the Amazon, in Northern Brazil. A large part of our indigenous land is located in the area of the national reserve of copper and associates (Renca), which the president Temer wants to open for mining through decree no 9142/2017. We are doing this document today to thank all people From Brazil and the whole world that are supporting us in the fight against this decree and in defense of forest conservation. We want to ask you to keep fighting on our side, and to help us get more and more allies.

We Wajãpi have a very strong culture that we want to continue valuing and transmitting to our future generations. We know to paint, we can sing and celebrate, we know how to educate our children, take care of our body, prepare our food, produce our tools, plant, take care of the earth, hunt, take care of the forest, fish, take care of rivers, respect our Owners and owners of the forest. Our life depends on the life of the earth and the forest.

In The 1990 s, we fought hard to get our indigenous land by expelling the prospectors who were polluting our rivers, destroying the forest and transmitting diseases that killed many of our relatives.

We Wajãpi have our own political organization, which must be respected. We’re from several different subgroups, living on the same earth. We have many villages and many families, each with their chief. We don’t have a general chief who decides for everyone. When we need to decide important things, we take collective decisions at the assemblies of representatives of all villages, where we seek to build consensus. We have three representative organizations that help the leaders to engage in dialogue with the government and other social groups.

We know our rights and the right to be consulted on government decisions that affect us, guaranteed by ilo convention 169 We Wajãpi were the first indigenous people of Brazil who drew up a proper protocol to guide the government on the correct way to conduct this prior, free and informed consultation. But we have not been consulted by the government about this decree that opens our region for mineral exploration.

We are against mining because we want to defend the land and the forest. In our knowledge, the earth is also people. It has its fur, which is the forest; it has its blood, which is water; it has its heart, which are the minerals; and it has its lung, which are the caves. The Earth has several fathers, which are the winds, and one of them is the strong and brave wind that punishes who does harm to his daughter. The Earth takes care of the animals, the fish, the human beings, the forest, the birds, the rivers and the owner of the rivers, the owner of the animals, the owner of the birds. The land keeps medicine, keeps rivers, riches, winds. Save the corpses of mankind, save stories narrated by the Wajãpi and by other people, save traces of all people. It produces food for humans and other people, has intelligence, has the ability to produce many things and is very strong. But Earth is mortal, feels pain like humanity and gets sick too.

That’s why we Wajãpi care very much about the destruction of the land that the settlers have been doing since they invaded America. If they continue to destroy everything to gain more and more money, they will kill the earth and extinguish human beings and other beings. We see that the destruction of forests is already bringing global warming and climate change to the whole world, storms, droughts, hurricanes.

We know that mining around our land will bring many problems for us: it will pollute our waters and soils, it will contaminate fish, animals and people, will cause a large population increase in our region, bring social conflicts and Diseases. We know that mining does not come alone: along with it must come roads, dams, new mines, farms, logging and other economic activities that destroy the forest. We know that all this destruction will never be recovered with reforestation, because the forest will never be the same again.

We also don’t want to get money to make up for everything that’s gonna be destroyed. For us the life of the land and the forest is worth much more than money. But the extinction of renca will not harm only the Wajãpi. The Reserve area also includes a part of the eastern indigenous land, our relatives and Aparai relatives, the sustainable development of the chestnut trees of the river, the national park of and other protected areas that are among the most preserved and With more biodiversity from the Amazon. All populations living in the forest using their resources sustainability will be affected by the social and environmental problems brought by major enterprises.

We know that the great wealth brought by the mining activity is in the hands of few people and that most of it is taken out of Brazil. For many years we have been following mining work in the municipalities of Serra do and, and we are seeing that the quality of life of the local population is not better when the farm ends. The money goes away fast, the residents are out of jobs and other sources of income, and the health and education situation is still bad. The development brought by mining is not sustainable development.

Therefore, we ask for the support of everyone and all who share our concern for the destruction of the Amazon to fight the opening of the area area for mineral exploration. Earth Indigenous Land, September 19, 2017.’

 

 

CARTA ABERTA DOS WAJÃPI SOBRE O DECRETO DE EXTINÇÃO DA RENCA

Nós Wajãpi moramos no Estado do Amapá, na Amazônia, no norte do Brasil. Uma grande parte da nossa Terra Indígena está localizada na área da Reserva Nacional do Cobre e Associados (RENCA), que o presidente Temer quer abrir para a mineração através do decreto nº 9142/2017. Nós estamos fazendo esse documento hoje para agradecer todas as pessoas do Brasil e do mundo inteiro que estão nos apoiando na luta contra esse decreto e em defesa da conservação da floresta. Queremos pedir que continuem lutando do nosso lado, e que nos ajudem a conseguir cada vez mais aliados.


Nós Wajãpi temos uma cultura muito forte, que queremos continuar valorizando e transmitindo para nossas gerações futuras. Nós sabemos nos pintar, sabemos cantar e fazer festas, sabemos educar nossas crianças, cuidar do nosso corpo, preparar nossos alimentos, produzir nossos utensílios, plantar, cuidar da terra, caçar, cuidar da floresta, pescar, cuidar dos rios, respeitar os nossos donos e os donos da floresta. Nossa vida depende da vida da terra e da floresta.


Na década de 1990, lutamos muito para conseguir demarcar a nossa Terra Indígena, expulsando os garimpeiros que estavam poluindo nossos rios, destruindo a floresta e transmitindo doenças que mataram muitos de nossos parentes.
Nós Wajãpi temos nossa própria organização política, que deve ser respeitada. Somos de vários subgrupos diferentes, vivendo na mesma terra. Temos muitas aldeias e muitas famílias, cada uma com seu chefe. Não temos um cacique geral que decide por todos. Quando precisamos decidir coisas importantes, tomamos decisões coletivas nas assembleias dos representantes de todas as aldeias, onde buscamos construir consensos. Temos três organizações representativas que ajudam os chefes a dialogar com o governo e outros grupos sociais.


Conhecemos nossos direitos e o direito de sermos consultados sobre decisões governamentais que nos afetam, garantido pela Convenção 169 da OIT. Nós Wajãpi fomos o primeiro povo indígena do Brasil que elaborou um protocolo próprio para orientar o governo sobre a maneira correta de realizar essa consulta prévia, livre e informada. Mas não fomos consultados pelo governo Temer sobre esse decreto que abre a nossa região para a exploração mineral.


Somos contra a mineração porque queremos defender a terra e a floresta. No nosso conhecimento, a terra também é gente. Ela tem seus pelos, que são a floresta; tem seu sangue, que é a água; tem seu coração, que são os minérios; e tem seu pulmão, que são as cavernas. A terra tem vários pais, que são os ventos, e um deles é o vento forte e bravo que castiga quem faz mal para sua filha. A terra cuida dos animais, dos peixes, dos seres humanos, da floresta, dos pássaros, dos rios e do dono dos rios, do dono dos animais, do dono dos pássaros. A terra guarda remédios do mato, guarda os rios, riquezas, ventos. Guarda os cadáveres da humanidade, guarda histórias narradas pelos Wajãpi e por outros povos, guarda vestígios de todas as gentes. Ela produz comida para os humanos e para outras gentes, tem inteligência, tem habilidade de produzir muitas coisas e é muito forte. Mas a terra é mortal, sente dor como a humanidade e fica doente também.
Por isso nós Wajãpi nos preocupamos muito com a destruição da terra que os colonizadores vêm fazendo desde que invadiram a América. Se continuarem destruindo tudo para ganhar cada vez mais dinheiro, vão matar a terra e vão extinguir os seres humanos e outros seres. Estamos vendo que a destruição das florestas já está trazendo o aquecimento global e mudanças climáticas para o mundo inteiro, tempestades, secas, furacões.


Sabemos que a mineração no entorno da nossa terra vai trazer muitos problemas para nós: vai poluir as nossas águas e solos, vai contaminar os peixes, os animais e as pessoas, vai causar um grande aumento da população na nossa região, trazer conflitos sociais e doenças. Sabemos que a mineração não vem sozinha: junto com ela devem vir estradas, barragens, novos garimpos, fazendas, exploração madeireira e outras atividades econômicas que destroem a floresta. Nós sabemos que toda essa destruição nunca vai ser recuperada com reflorestamento, porque a floresta nunca mais vai voltar a ser igual. Também não queremos receber dinheiro para compensar tudo o que vai ser destruído. Para nós a vida da terra e da floresta vale muito mais do que o dinheiro.


Mas a extinção da RENCA não vai prejudicar apenas os Wajãpi. A área da reserva também inclui uma parte da Terra Indígena Paru de Leste, dos nossos parentes Wayana e Aparai, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável dos castanheiros do rio Iratapuru, o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque e outras áreas protegidas que estão entre as mais preservadas e com maior biodiversidade da Amazônia. Todas as populações que vivem na floresta usando seus recursos de forma sustentável vão ser afetadas pelos problemas sociais e ambientais trazidos pelos grandes empreendimentos minerários.
Sabemos que a grande riqueza trazida pela atividade das mineradoras fica nas mãos de poucas pessoas e que a maior parte dela é levada para fora do Brasil. Há muitos anos estamos acompanhando o trabalho de mineradoras nos municípios de Serra do Navio e Pedra Branca do Amapari, e estamos vendo que a qualidade de vida da população local não fica melhor quando a exploração termina. O dinheiro vai embora rápido, os moradores ficam sem emprego e outras fontes de renda, e a situação de saúde e educação continua ruim. O desenvolvimento trazido pela mineração não é um desenvolvimento sustentável.


Por isso, pedimos o apoio de todos e de todas que compartilham a nossa preocupação com a destruição da Amazônia para lutar contra a abertura da área da RENCA para a exploração mineral.

Terra Indígena Wajãpi, 19 de setembro de 2017.

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